
Mariana Gil: “A mulher cigana ainda é vista como um ser incapaz, primitivo”
Antes de falarem sobre o seu trabalho, as suas escolhas ou os seus sonhos, há sempre uma pergunta que se impõe: quem são? Ou, mais exactamente, por que são como são? Para muitas pessoas ciganas, esta é uma realidade quotidiana, porque certas identidades vivem sob uma exigência permanente de explicação.
Neste episódio do podcast Um Género de Conversa, Maria Gil e Mariana Gil, mãe e filha, contam-nos as suas experiências individuais enquanto mulheres e ciganas, nascidas em gerações distintas. Actriz, activista e uma das vozes mais influentes do feminismo cigano em Portugal, Maria Gil dedicou grande parte da sua vida a combater os estereótipos e criar pontes de diálogo: “Digo sempre que sou mulher e cigana. A minha primeira condição é ser humana, o acréscimo é a minha cultura”, afirma.
Já a sua filha, Mariana, que soma as palavras "afrodescendente" e "estudante" a esta descrição, pertence a uma geração que colhe os frutos desse legado de afirmação, porém, continua a enfrentar preconceitos antigos, agora confrontados com novas formas de discriminação. Como diz, “a mulher cigana ainda é vista como um ser incapaz, primitivo”.
"Eu nasci para existir. Obrigaram-me a resistir", resume Mariana Gil, que terminou a licenciatura com uma média de 18 valores e conseguiu uma bolsa de Mestrado em Communication, Media and Creative Industries da Sciences Po Paris, uma das universidades mais prestigiadas do mundo na área das Ciências Sociais.
Para conseguir fazer face aos custos associados à estadia em França, e, assim, poder cumprir as suas ambições de formação, abriu uma campanha online de angariação de fundos. “O mérito, quando não és uma pessoa branca, não és um homem ou não tens certas potencialidades económicas, leva-te até um certo ponto, mas a ousadia leva-te a outro lugar”.
Ao longo da conversa, mãe e filha reflectem sobre o peso da resistência permanente, a importância da educação, o papel do feminismo e a necessidade de construir referências positivas para as gerações mais novas. Maria Gil confessa o cansaço de educar os filhos para uma militância constante, enquanto Mariana descreve o desgaste de sentir que a sua identidade continua a ser recebida com surpresa ou desconfiança.
O episódio aborda ainda a invisibilidade das mulheres ciganas nos espaços públicos, a urgência de abandonar narrativas simplistas que reduzem pessoas a caricaturas e os preconceitos persistentes em torno das comunidades ciganas em Portugal, acentuados pelo crescimento das narrativas populistas da extrema-direita.
“Há quem ande com fardos às costas, eu ando com a extrema-direita. Portugal tem desde há quinhentos anos uma raiz muito bem nutrida sobre o anticiganismo, foi um alvo fácil.”.
Mas mais do que falar sobre discriminação, Maria e Mariana Gil convidam a pensar sobre liberdade: a liberdade de cada pessoa definir a sua própria identidade, sem precisar de pedir legitimidade ao olhar dos outros.
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